Eu cozinhava, você não estava.
Eu musicava, você não estava.
Eu carregava, você não estava.
Eu celebrava, você não estava.
Eu desejava, você não estava.
Eu chorava, você também não estava.
Eu precisava? Precisar, não precisava.
Eu cozinhava, você não estava.
Eu musicava, você não estava.
Eu carregava, você não estava.
Eu celebrava, você não estava.
Eu desejava, você não estava.
Eu chorava, você também não estava.
Eu precisava? Precisar, não precisava.
Praticidade
Se o mundo fosse prático,
para que serviriam as flores?
O que seriam das suas cores?
Talvez um lugar matemático?
E onde estariam os cantores,
se tudo fosse tão apático,
lototado de sujeito antipático?
Haveria lugar aos escritores?
O que dizer da nossa arte,
vivesse ela nesse lugar sem encanto?
Seria avistada em alguma parte?
A verdade é que já não me espanto.
Quando as formas de afeto vão a descarte,
porque não sobra nem espaço para derramar meu pranto.
Carnaval é distração, animação, azaração.
Pós-carnaval, ai não, volta a confusão, impera-se a compulsão, damos boas vindas à procrastinação.
Nessa vida gostaria de ter sido Rei por ao menos um único dia.
Quem sabe, assim, tivesse a chance de cruzar todos os mares, enfrentado monstros, cyclopes e dragões?
E voaria pelos ares cruzando continentes em meio à fúria dos vulcões e das mais temidas tempestades.
Talvez, assim, fosse também aclamado pelos mais violentos impérios que já foram vistos por aqui.
Seria ovacionado por trompetes em meio aos mais deliciosos banquetes, adornado em lindas flores e levado em meio aos lençóis da mais fina seda.
O que mais desejaria, quem sabe fosse assim, um dia, seria ser considerado Rei por aquela que escolhi como minha Rainha.
- Vou te chamar de trublion turbilhão, que veio revirar meu coração.
- Resta saber qual deles está mais revirado, pois o meu foi completamente laçado.
- Você anda correndo? Perguntou o manobrista do estacionamento em que paro a minha moto.
De fato, ele sempre me vê correndo, correndo da vida, na vida, da hora, e para entrar na hora, mas também para treinar, e até quando estou andando, para ele, eu estou correndo.
- Literal, ou figurativamente? Pergunto com um sorriso.
- O quê? Retruca com uma interrogação em meio ao olhar.
Certamente perplexo, mais do que eu: "Como alguém pode fazer isso?".
- Sim, literal, lateral, e figurativamente, também. Respondo.
- O quê? Questiona, novamente, sem já não entender o curso da conversa.
Nos acenamos em despedida, com um sinal de joinha que correu rapidamente pelo espaço enquanto voltava à minha corrida diária.
O corpo humano revelado de impressionantes peças e precisos recortes anatômicos não é apenas fascinante, mas preciosamente poético.
De beleza ímpar, o maquinário que compõe nossos corpos é tão potente que, com um punhado de gratidão, o seu movimento beira à perfeição.